1o
mamihlapinatapai
Yagan
o olhar trocado por duas pessoas que querem algo e esperam que o outro comece
É o caso mais extremo do acervo: nenhuma frase curta em português dá conta de um olhar, dois desejos e duas hesitações.
Ranking · 64 palavras
Termos que só chegam ao português por meio de uma frase inteira, nunca por uma palavra só.
Entram apenas palavras que exigem uma explicação de pelo menos cinco palavras para serem traduzidas. A posição depende de quanto a tradução perde no caminho: quanto mais contexto cultural a palavra carrega, mais alto ela fica.
Discorda de uma posição? Os argumentos de cada colocação estão abaixo, e a metodologia explica o cálculo.
1o
Yagan
o olhar trocado por duas pessoas que querem algo e esperam que o outro comece
É o caso mais extremo do acervo: nenhuma frase curta em português dá conta de um olhar, dois desejos e duas hesitações.
2o
Dinamarquês
aconchego construído de propósito
Nenhuma palavra do português cobre ao mesmo tempo o ambiente, a companhia e a intenção de criar o conforto. Aconchego chega perto, mas não carrega a ideia de algo preparado de propósito.
3o
Russo
angústia profunda, sem causa identificável
Angústia, melancolia, tédio e saudade cobrem fatias do sentido, e nenhuma delas dá conta do conjunto.
co-mo-RÊ-bi
a luz do sol que vaza entre as folhas das árvores
O nome japonês para os feixes de sol que atravessam a copa das árvores e desenham manchas de luz no chão.
Curiosidade O japonês tem uma família grande de palavras para tipos de luz e chuva, o que ajuda a explicar por que komorebi existe como termo isolado.
O português só chega ao sentido com uma oração relativa completa, e ainda assim perde a ideia de vazamento presente no verbo japonês.
mó-no no a-uá-rê
a melancolia serena diante da passagem das coisas
A emoção suave que surge ao perceber que tudo é passageiro — e que essa fragilidade é exatamente o que torna as coisas belas.
Curiosidade A palavra aware, sozinha, hoje soa antiquada em japonês; a expressão completa se manteve por causa do peso literário.
Melancolia e nostalgia erram o alvo: a emoção japonesa é dirigida ao presente que se esvai, não ao passado.
HÍ-raiz (o th final é o som do inglês think)
falta dolorida de um lar que não se pode recuperar
A saudade galesa de um lugar que talvez nunca tenha existido como a memória o guarda: falta, luto e pertencimento na mesma palavra.
Curiosidade A construção da frase em galês trata o sentimento como algo que está sobre a pessoa, e não como algo que ela tem, detalhe gramatical que reforça a ideia de peso.
Saudade é a tradução mais próxima e ainda assim erra, porque não carrega o componente de impossibilidade e de luto coletivo.
uá-bi-SSÁ-bi
a beleza do imperfeito, do simples e do que envelhece
Uma estética que valoriza a rachadura, a assimetria e a marca do tempo em vez do acabamento perfeito.
Curiosidade A técnica do kintsugi, que conserta cerâmica com ouro em vez de esconder a trinca, é a aplicação mais conhecida do princípio.
Exige duas ideias combinadas, austeridade e desgaste, que o português trata como defeitos e não como qualidades.
PÓ-ron-cu-sse-ma
a distância que uma rena percorre antes de precisar urinar
Uma antiga unidade de medida finlandesa baseada no limite fisiológico da rena, equivalente a cerca de 7,5 quilômetros.
Curiosidade A estimativa mais citada é de 7,5 quilômetros, mas fontes finlandesas trabalham com uma faixa entre 6 e 10 quilômetros.
Não existe em português nenhuma unidade de distância baseada em necessidade fisiológica de animal, o que obriga a uma frase explicativa inteira.
she-mo-me-DJÁ-ma
comi sem querer até o fim porque estava bom demais
Um verbo georgiano que traduz literalmente como comi acidentalmente tudo: a comida estava boa, a mão continuou, a culpa é atribuída ao prato.
Curiosidade A cozinha georgiana é conhecida por mesas coletivas muito longas, o supra, contexto em que a palavra se aplica com frequência.
Precisamos de uma frase com pelo menos oito palavras, e mesmo assim não conseguimos manter a ideia de que a ação foi involuntária.
SCRÍ-ab
a coceira no lábio superior pouco antes de beber uísque
Uma palavra para o formigamento que antecipa o primeiro trago: talvez o termo mais específico de todo o acervo.
Curiosidade O registro da acepção ligada ao uísque aparece em dicionários gaélicos do século 19, o que mostra que não é invenção moderna de internet.
Descrever esse formigamento em português exige uma oração inteira com referência à bebida, e ainda soa improvável.
tsun-DÓ-cu
o hábito de acumular livros comprados e não lidos
A pilha de livros que você comprou com a melhor das intenções e nunca abriu — com nome próprio e sem julgamento moral.
Curiosidade O termo se espalhou fora do Japão por listas de palavras intraduzíveis e hoje é usado por leitores de vários países em redes sociais.
Pilha de livros não lidos descreve o objeto, mas não o hábito nem a relação afetiva com ele.
ran-iá-u-cu
andar na ponta dos pés sobre areia quente
Um verbo da Namíbia para o jeito específico de caminhar quando o chão está pegando fogo e não há sandália por perto.
Curiosidade A palavra aparece em quase todas as listas de intraduzíveis publicadas desde os anos 2000, quase sempre sem indicação da língua correta, frequentemente descrita apenas como africana.
Andar na ponta dos pés na areia quente são sete palavras em português para um verbo único no original.
LÁ-gom
na medida exata, nem pouco nem demais
O elogio sueco à quantidade certa: a palavra que diz que algo está suficiente sem estar escasso nem excessivo.
Curiosidade A palavra é usada em campanhas de sustentabilidade como argumento contra o consumo excessivo.
Nem suficiente nem equilibrado servem: as duas palavras soam neutras em português, enquanto lagom é um elogio.
fer-CHLIM-bê-sern
piorar algo justamente ao tentar melhorá-lo
O verbo para aquele conserto que estraga mais, aquela revisão que deixa o texto pior, aquele conselho que complica tudo.
Curiosidade A palavra é frequentemente citada em discussões sobre a eficiência do alemão para criar conceitos, porque descreve um fenômeno cotidiano que outras línguas só apontam com ironia.
Não existe verbo em português que reúna a boa intenção e o resultado pior em uma só palavra.
iá cab-BÚR-ni
que você me enterre: espero morrer antes de você
Uma declaração de amor construída como desejo de morrer primeiro, para não ter de viver a ausência da outra pessoa.
Curiosidade A expressão é mais comum em dialetos do Levante e aparece em canções e novelas como marca de afeto familiar.
Nenhuma expressão portuguesa liga declaração de amor a desejo de morrer primeiro sem soar fúnebre.
FÉRN-vê
saudade de lugares onde nunca se esteve
O contrário exato de saudade de casa: a dor de não estar longe, sentida por quem nunca visitou o lugar que lhe falta.
Curiosidade O termo é atribuído ao príncipe Hermann von Pückler-Muskau, autor de textos de viagem do século 19, e nasceu portanto na literatura antes de cair no uso comum.
Saudade de um lugar que você nunca viu é uma contradição em português, e é exatamente o que a palavra alemã descreve sem esforço.
IÊ-co-ta (o g inicial soa como i)
acordar de madrugada só para ouvir os primeiros pássaros
A prática de levantar antes do amanhecer e sair para ouvir o canto dos pássaros, com nome próprio e tradição de calendário.
Curiosidade A prática é tradicionalmente ligada ao dia da Ascensão, quando grupos e paróquias organizam saídas coletivas com café da manhã ao ar livre.
Reúne horário, intenção e objeto da escuta em um substantivo, algo que o português só resolve com oração completa.
rran (o h é aspirado, próximo do r inicial carioca)
mágoa coletiva acumulada, misturada com resistência
Um sentimento nacional coreano de injustiça sofrida e não resolvida, que combina tristeza, ressentimento e a força de continuar mesmo assim.
Curiosidade O gênero musical pansori e o estilo vocal do trot são frequentemente descritos como veículos de han.
Mágoa, ressentimento e rancor descrevem sentimentos individuais; falta em português um termo para uma dor histórica coletiva.
GHÍ-guil
o impulso de apertar algo insuportavelmente fofo
Aquela vontade de esmagar a bochecha de um bebê ou de apertar um filhote: uma reação conhecida da psicologia e batizada no tagalo.
Curiosidade Psicólogos chamam o fenômeno de agressão cuty ou agressão fofa e o interpretam como forma de regular emoções positivas muito intensas.
Vontade de apertar de fofura é a nossa melhor tentativa, e é uma frase, não uma palavra.
ic-tsu-ÁR-poc
a impaciência de quem sai para ver se a visita já chegou
Aquela expectativa que faz você olhar pela janela de dois em dois minutos esperando alguém: no Ártico canadense, isso é uma palavra só.
Curiosidade Circula a afirmação de que o inuktitut teria dezenas de palavras para neve; a formulação correta é que a língua permite criar muitas palavras derivadas, o que é diferente de ter dezenas de termos independentes.
Ansiedade da espera cobre a emoção, mas deixa fora o comportamento de sair para olhar, que é parte da definição.
MÔN-ga-ta
rua da lua: o rastro luminoso da lua sobre a água
O caminho prateado que a lua desenha na superfície do mar ou do lago e parece convidar a caminhar sobre ele.
Curiosidade O fenômeno só aparece quando há ondulação: em água totalmente parada, a lua se reflete como um disco, e não como estrada.
O português precisa de cinco palavras para o que o sueco resolve em uma, e ainda assim descarta a metáfora da rua.
TÁR-tol
hesitar ao apresentar alguém porque esqueceu o nome da pessoa
Aquele microssegundo de pânico em que você vai apresentar alguém e o nome simplesmente não vem. O scots tem verbo para isso.
Curiosidade A palavra é a favorita de listas de termos intraduzíveis porque nomeia um constrangimento universal que nenhuma língua grande resolveu batizar.
Dar branco existe em português, mas não cobre a situação social específica de estar apresentando alguém.
VÁLD-ain-sam-kait
a solidão boa de estar sozinho na floresta
O estado de quem está só no meio das árvores e sente paz em vez de abandono: solidão como recompensa, não como falta.
Curiosidade O poeta norte-americano Ralph Waldo Emerson escreveu um poema com este título em alemão, sem traduzi-lo, por não encontrar equivalente em inglês.
Traduzir por solidão na floresta perde o essencial: a palavra alemã indica que essa solidão é agradável.
a-KÍ-rri
esquecer as instruções assim que a pessoa termina de explicar
Você pergunta o caminho, agradece, dá dez passos e percebe que não guardou nada. O havaiano tem verbo para isso.
Curiosidade A palavra é uma das mais citadas em listas de termos intraduzíveis, e uma das poucas dessas listas que descrevem uma falha cognitiva específica.
Precisamos de uma frase inteira e ainda soa como desculpa; em havaiano é apenas a descrição de um fato.
es-PRÍ de les-ca-LIÊ
a resposta perfeita que só aparece depois que a conversa acabou
Literalmente espírito da escada: a réplica brilhante que chega quando você já saiu da sala e está descendo os degraus.
Curiosidade O alemão criou um decalque da expressão francesa, Treppenwitz, que hoje mudou de sentido e designa uma ironia do destino.
O português descreve a situação com uma frase longa e nunca com um nome próprio para o fenômeno.
SÍ-su
determinação teimosa diante do que parece impossível
A força que aparece depois que a força normal acabou: persistência obstinada tratada como traço nacional finlandês.
Curiosidade Existe pesquisa acadêmica finlandesa dedicada a medir o conceito, com questionários que separam persistência construtiva de obstinação prejudicial.
Garra e persistência não carregam o componente de agir sem esperança que define o termo finlandês.
TÔR-chlus-pâ-nic
pânico de que as oportunidades da vida estejam se fechando
A sensação de correr contra o relógio biológico e social, batizada com a imagem do portão da cidade se fechando ao anoitecer.
Curiosidade Em alguns registros mais antigos, o termo aparecia ligado ao xadrez e ao jogo, com o sentido de fechar posições antes do fim da partida.
O português só chega perto com frases longas, e nenhuma delas conserva a imagem do portão que se fecha.
u-BÚN-tu
humanidade que só existe na relação com os outros
Uma ética africana resumida na ideia de que uma pessoa é pessoa por meio das outras pessoas — e não apesar delas.
Curiosidade Desmond Tutu popularizou o termo internacionalmente ao usá-lo para explicar a Comissão da Verdade e Reconciliação sul-africana.
Humanidade e solidariedade traduzem partes; falta em português a ideia de que a própria condição de pessoa depende do outro.
FÍ-ca
pausa para café tratada como compromisso social
Mais que tomar café: é parar de trabalhar, sentar com alguém e conversar, com hora marcada e algo doce na mesa.
Curiosidade Existe a variação fikapaus e até o cargo informal de quem organiza a fika em grupos de trabalho.
Cafezinho traduz a bebida, não o compromisso social com horário e companhia que a palavra sueca implica.
fi-LÓ-ti-mo
senso de honra que obriga a agir bem com os outros
Uma virtude grega que combina dignidade, gratidão e dever social: fazer o que é certo porque isso define quem você é.
Curiosidade O termo é frequentemente citado em discussões sobre identidade grega e aparece em pesquisas de antropologia sobre reciprocidade no Mediterrâneo.
Honra, brio e dignidade traduzem pedaços; nenhuma palavra do português reúne o dever social e a gratidão implicados no termo.
TÍN-go
ir pegando emprestado os objetos de um vizinho até esvaziar a casa dele
O verbo da Ilha de Páscoa para quem toma emprestado item por item, sem devolver nenhum, até a casa do vizinho ficar vazia.
Curiosidade A fama da palavra vem do livro The Meaning of Tingo, o que faz dela um bom exemplo de termo cuja circulação internacional é maior que o uso documentado.
Descrever o comportamento exige uma frase longa, e não temos palavra para essa forma lenta de apropriação.
VÉLT-chmerts
a dor de perceber que o mundo real nunca será o mundo ideal
O cansaço melancólico de quem compara o mundo como ele é com o mundo como poderia ser e sente o tamanho da diferença.
Curiosidade A palavra atravessou para o inglês e é usada em crítica cultural sem tradução, sinal de que nenhuma língua vizinha encontrou substituto.
Tristeza pelo mundo soa vago; o alemão especifica que a dor nasce da comparação entre o real e o ideal.
de-pê-is-MÃN
o estranhamento de estar fora do próprio país
A sensação de deslocamento de quem está em outro lugar e percebe que nada funciona como em casa — às vezes desconfortável, às vezes exatamente o que se buscava.
Curiosidade A palavra pode ser usada sem viagem alguma: mudar de bairro ou de ambiente de trabalho pode provocar dépaysement.
Estranhamento cultural é a tradução usual, mas perde a ambiguidade positiva que o francês conserva.
NUN-tchi
habilidade de ler o clima de um ambiente e agir de acordo
A leitura fina das emoções alheias em tempo real: quem tem nunchi percebe quando calar, quando sair e quando insistir.
Curiosidade O japonês tem o conceito próximo kuuki wo yomu, ler o ar, o que mostra a valorização compartilhada da leitura implícita de contexto na região.
Jogo de cintura e sensibilidade social apontam para o mesmo território, sem nomear a habilidade de leitura coletiva.
CHÁ-den-froi-de
alegria sentida com o azar de outra pessoa
O prazer discreto de ver alguém antipático escorregar: um sentimento que quase todos conhecem e que o português nunca batizou.
Curiosidade Existem termos próximos em outras línguas, como o grego epicairekakía, registrado desde a Antiguidade, mas foi a forma alemã que se internacionalizou.
Precisamos de sete palavras para traduzir o que o alemão resolve em uma, e a versão em português já vem carregada de julgamento moral.
KÍ-lig
o arrepio de borboletas no estômago causado por alguém
A eletricidade que passa pelo corpo quando a pessoa de quem você gosta se aproxima: no tagalo, isso tem nome e é usado todos os dias.
Curiosidade O termo entrou no Oxford English Dictionary em 2016, junto com outras palavras do inglês filipino, o que documenta sua circulação internacional.
Borboletas no estômago é uma metáfora emprestada do inglês; o tagalo tem substantivo direto para a sensação.
CÚ-mer-chpek
o peso ganho comendo por tristeza
Literalmente bacon da mágoa: os quilos acumulados em uma fase ruim, com nome próprio e um tom de humor autoirônico.
Curiosidade O alemão tem uma família de compostos com Speck para diferentes causas de ganho de peso, entre eles Urlaubsspeck, o das férias, e Winterspeck, o do inverno.
Comer por tristeza descreve o comportamento; o alemão nomeia o resultado físico dele, algo que o português não faz.
TÁ-rab
êxtase provocado pela música
O estado de arrebatamento coletivo em que músico e plateia entram juntos: um conceito estético central na música árabe clássica.
Curiosidade Nos concertos clássicos árabes, a plateia participa com exclamações durante a música, comportamento que faz parte do ciclo do tarab e não é considerado interrupção.
Êxtase musical explica o efeito, mas não a relação de troca entre palco e plateia que a palavra pressupõe.
Ú-te-pils
cerveja tomada ao ar livre no primeiro sol do ano
A primeira cerveja bebida fora de casa quando o inverno finalmente cede, com data variável e comemoração garantida.
Curiosidade A palavra existe porque o clima a justifica: em países de inverno curto, beber na calçada não é evento suficiente para ganhar nome próprio.
Exige uma frase completa em português porque reúne bebida, estação do ano e sensação de alívio em um só substantivo.
DUÊN-de
o arrepio provocado por uma apresentação artística verdadeira
Aquilo que acontece quando um cantor ou dançarino toca algo profundo em quem assiste: no flamenco, dizer que alguém tem duende é o maior elogio possível.
Curiosidade Lorca distinguia duende de musa e de anjo: a musa dita, o anjo ilumina, mas o duende luta com o artista e exige entrega do corpo.
Em português, duende é apenas a criatura do folclore; o sentido artístico exige uma explicação inteira.
cu-chi-sa-bi-SHÍI
boca solitária: comer só para ter algo na boca
O estado de mastigar sem fome, por tédio ou inquietação, descrito como uma carência da própria boca.
Curiosidade A palavra é citada em campanhas antitabagismo japonesas para explicar a recaída por hábito oral, e não por vício químico.
Comer por ansiedade explica a causa, mas não descreve a sensação localizada na boca que o japonês nomeia.
NÁ-rres (o ch é raspado na garganta)
orgulho alegre pelas conquistas dos filhos
O prazer específico de quem se orgulha do sucesso de outra pessoa — normalmente um filho ou neto — e sente isso como recompensa própria.
Curiosidade O termo é usado em inglês americano sem tradução, um dos muitos empréstimos do ídiche que entraram na língua pelo humor e pela literatura.
Orgulho de filho é uma frase, não um substantivo, e não indica que o sentimento é uma recompensa colhida ao longo da vida.
i-ki-GÁI
aquilo que faz valer a pena acordar
A razão de viver em escala cotidiana: pode ser um trabalho, mas também um neto, um jardim ou uma rotina de pesca.
Curiosidade O famoso diagrama de quatro círculos que cruza paixão, missão, profissão e vocação não é japonês: foi criado fora do Japão e associado à palavra depois, a partir de um esquema sobre propósito.
Propósito de vida soa solene e profissional; ikigai admite motivos pequenos e domésticos.
DJÁ-ius
piada tão ruim e mal contada que acaba engraçada
Uma palavra para o humor que funciona pelo fracasso: a piada não tem graça, quem conta não tem timing, e por isso todos riem.
Curiosidade O fenômeno é conhecido em outras culturas: o japonês fala de oyaji gyagu, piada de pai, e o inglês de dad joke, mas nenhum desses termos aponta o riso causado pelo fracasso da piada.
Piada sem graça é uma avaliação; jayus indica que o riso aconteceu apesar disso, o que o português não sintetiza.
so-bre-MÊ-sa
a conversa que continua à mesa depois da comida acabar
O tempo em que ninguém levanta da mesa: um ritual social espanhol que o português conhece pela prática e não pelo nome.
Curiosidade Pesquisas sobre hábitos alimentares na Espanha registram a sobremesa como prática cotidiana, inclusive em dias de semana e em horário de trabalho.
Em português a palavra existe com outro sentido, o que nos obriga a explicar o conceito espanhol com uma frase inteira.
a-BIÓ-co
a sonolência pesada que bate depois de comer muito
Aquele apagão de domingo depois do almoço tem nome em italiano, e o nome vem da imagem da galinha que se acomoda no chão.
Curiosidade O fenômeno tem explicação fisiológica: o fluxo de sangue se concentra no sistema digestivo e a ingestão de carboidratos influencia a produção de serotonina.
O português descreve o estado com frases como bateu o sono depois do almoço, sem nunca nomear a sensação.
kútch
abraço que funciona como abrigo
Uma palavra galesa sem vogal aparente que significa ao mesmo tempo abraço apertado e lugar seguro para guardar algo.
Curiosidade A palavra é usada com naturalidade por galeses que não falam galês, em frases inteiramente em inglês, e é um dos maiores símbolos de identidade linguística da região.
Abraço não distingue o cumprimento do abrigo, e é essa diferença que a palavra galesa nomeia.
KÚ-ssê-li (o g final praticamente não soa)
que produz bem-estar caloroso
A versão norueguesa do aconchego, aplicada a lugares, pessoas e até a conversas que deixam o corpo relaxado.
Curiosidade No inverno norueguês, com dias muito curtos, koselig se aplica sobretudo à luz: velas e lâmpadas amarelas são consideradas indispensáveis.
Aconchegante traduz parte do sentido, mas não se aplica a pessoas nem a conversas como koselig faz no uso diário.
me-RÁ-ki
fazer algo colocando a própria alma no trabalho
A entrega criativa de quem cozinha, constrói ou escreve deixando parte de si no resultado — e que se percebe no produto final.
Curiosidade O grego tem também meraklís, a pessoa que age com meraki, usada como elogio para quem faz bem feito por gosto próprio.
Feito com amor é a tradução usual e soa piegas; o grego descreve uma qualidade objetiva do trabalho, não uma declaração.
spre-tsa-TÚ-ra
elegância que finge não ter sido planejada
A arte de parecer descuidado depois de muito cuidado: um conceito renascentista que virou vocabulário de moda e de comportamento.
Curiosidade O conceito é hoje palavra corrente na imprensa de moda masculina, usada para descrever detalhes deliberadamente imperfeitos, como um nó de gravata levemente torto.
Elegância descontraída chega perto, mas não inclui o trabalho escondido que é o núcleo do conceito.
gue-MÜT-lich-kait
clima de conforto, calma e boa companhia
O aconchego alemão: ambiente tranquilo, gente boa em volta e nenhuma pressa, sem depender de velas nem de decoração.
Curiosidade O conceito é tão associado à Baviera que aparece em cartazes e canções de festas populares, como sinônimo de hospitalidade.
Aconchego cobre o ambiente, mas não a ausência de pressa nem a disposição interior que a palavra alemã descreve.
pa-tche-MÚTCH-ka
pessoa que faz perguntas o tempo todo
O nome afetuoso dado a quem não para de perguntar por quê — geralmente uma criança, às vezes um adulto insistente.
Curiosidade Existem coleções de livros infantis russos com a palavra no título, dirigidas justamente à curiosidade das crianças.
O português descreve o comportamento com uma oração; o russo tem um apelido pronto e afetuoso.
DÔL-tche far NIÊN-te
a doçura de não fazer nada
O ócio como prazer legítimo, sem culpa e sem produtividade escondida: uma expressão italiana que o português só traduz com ressalvas morais.
Curiosidade A expressão ficou conhecida no mundo anglófono a partir de relatos de viagem e, mais recentemente, de livros e filmes sobre a Itália.
Ócio existe em português, mas soa técnico ou pejorativo; falta o adjetivo que transforma a inatividade em prazer.
a-pa-pa-TCHÁR
abraçar com afeto, no sentido de acolher a alma
O verbo mexicano para o carinho que consola: uma palavra de origem náuatle frequentemente traduzida como abraçar com a alma.
Curiosidade O substantivo apapacho é usado em campanhas de saúde mental no México com o sentido de acolhimento afetivo.
Mimar e acolher dividem o sentido entre si; nenhuma palavra do português reúne gesto e intenção como o verbo mexicano.
LÚFT-mench
pessoa das nuvens, que vive de sonhos e não de trabalho
Literalmente pessoa de ar: alguém sem ocupação prática, cheio de planos, que de alguma forma vai levando a vida.
Curiosidade O ídiche tem um vocabulário notavelmente detalhado para tipos humanos, com termos distintos para o azarado, o desastrado, o chato e o sonhador.
Sonhador e desocupado dividem o sentido; falta em português um substantivo que una as duas ideias com humor.
fla-NÊR
quem caminha pela cidade sem destino, observando tudo
O andarilho urbano que transformou a caminhada sem rumo em forma de conhecer o mundo — e virou conceito central da crítica moderna.
Curiosidade Nos anos 1840 houve moda entre flâneurs parisienses de passear com tartarugas para ostentar lentidão, episódio citado por Benjamin.
Andarilho e passeante existem, mas não carregam a dimensão estética e crítica que o termo francês acumulou.
PÁ-na PÓ-o
coçar a cabeça para tentar lembrar de algo
O gesto automático de quem esqueceu onde deixou a chave tem nome próprio em havaiano, com verbo e objeto.
Curiosidade O havaiano tem apenas treze fonemas, um dos menores inventários sonoros do mundo, o que explica palavras com muitas vogais em sequência.
O português descreve o gesto, mas não o registra como expressão fixa ligada ao esforço de lembrar.
me-ne-fre-GUÍS-ta
pessoa que declaradamente não se importa com nada
Um substantivo construído a partir da frase não estou nem aí: o italiano transformou a atitude de indiferença em categoria de pessoa.
Curiosidade A expressão me ne frego teve uso político intenso na Itália do início do século 20, o que explica parte da carga negativa do termo derivado.
O português não tem substantivo para quem faz da indiferença uma posição; usamos frases com verbo.
re-tru-VÁI
a alegria do reencontro depois de muito tempo
A palavra francesa para o momento de rever alguém que estava longe — não o encontro em si, mas a emoção que ele produz.
Curiosidade O português tem reencontro, mas a palavra nomeia o fato, não a carga afetiva; em francês, dizer retrouvailles já anuncia a emoção.
Reencontro traduz o evento; falta em português um substantivo que já contenha a alegria do momento.
RRÚTS-pa (o primeiro som é raspado na garganta)
audácia descarada, atrevimento sem vergonha
A ousadia de quem passa dos limites com tanta convicção que quase merece admiração — e que pode ser elogio ou insulto, dependendo do tom.
Curiosidade A palavra entrou em dicionários de inglês e é usada em jornalismo político americano com o sentido de ousadia admirável.
Cara de pau chega perto no sentido negativo, mas não cobre o uso admirativo que a palavra ganhou em inglês.
sau-DÁ-de
a presença da falta de alguém ou de algo
A palavra mais exportada do português, e não é intraduzível como se diz: o que é raro nela é o uso, não a existência.
Curiosidade O galego tem soidade e o catalão, enyorança, com sentidos muito próximos. O romeno dor e o galês hiraeth ocupam terreno semelhante.
Perde posições justamente porque tem equivalentes parciais em várias línguas, ao contrário do que se repete.
shin-rin-IÔ-cu
banho de floresta: caminhar entre árvores como prática de saúde
Uma prática criada por política pública japonesa nos anos 1980: estar na mata devagar, sem meta de exercício, para reduzir estresse.
Curiosidade O Japão mantém uma rede de florestas oficialmente designadas para a prática, com trilhas medidas e sinalizadas.
Banho de floresta existe em português apenas como tradução literal recente, importada junto com a prática.
de-zen-ras-CAN-ço
a arte de resolver um problema sem recursos, na última hora
A palavra portuguesa para a habilidade de improvisar uma solução funcional com o que estiver à mão, considerada virtude nacional em Portugal.
Curiosidade A palavra aparece com frequência em listas internacionais de termos intraduzíveis, quase sempre como exemplo do português europeu.
Improvisação e desenvoltura cobrem partes do sentido; falta em outras línguas a ideia de resolver sem recursos e no limite do prazo.
fri-o-LÊ-ro
pessoa que sente frio com muita facilidade
Existe um adjetivo em espanhol para quem vive de blusa em dia de 22 graus, e o português só consegue dizer isso com uma frase.
Curiosidade Em algumas regiões da Espanha a forma usada é friolento, mais próxima do português brasileiro.
Friorento existe em português e cobre o sentido, o que derruba a palavra nas posições deste ranking.
Nenhuma palavra deste ranking no idioma escolhido.